1992

O ano de 1992 se inicia, olho para trás e vejo que já passei dois Natais e Reveions sem a família. A solidão é válida somente para termos a certeza de que não a queremos. Tive a opção uma vez de ficar longe de minha família e se Deus permitir, espero nunca mais faze-lo novamente.
A vida na cidade de Nariwa é bem tranquila e sem agitação, típico de uma cidade do interior. Me preparava todos os dias, seja antes de ir ao trabalho ou após retornar, treinando no porão do alojamento e correndo pela cidade, precisava estar apto para prestar o exame.
Continuava minha peregrinação de finais de semana e isto ajudou muito no meu desenvolvimento, pois o fato de ficar hospedado no Dojo e na casa do Sensei, me fizeram conhecer o Sensei também como pessoa, o que aumentou ainda mais minha admiração e respeito. Valores verdadeiros de um grande Budoka, integridade, honra, respeito, humildade e simplicidade, não em um discurso, não em um texto bonito, mas sim, aplicados de forma prática, na vida, no cotidiano. Exemplos que ficaram marcados em minha memória, ensinamentos valorosos e sem dizer nenhuma palavra. Via alí um verdadeiro exemplo a ser seguido, que me mostrava que o caminho do Budo, trilhado de forma correta me levaria até àquele patamar, um patamar de evolução pessoal, de elevação espiritual, de sabedoria. Mais do que ganhar títulos, queria chegar a ser como meu Mestre, uma pessoa, um ser humano melhor.
Mas, chegado o dia do exame, nada da minha admiração e das nossas conversas de domingo de manhã, facilitariam o meu “teste”. Deveria demonstrar todas as técnicas aprendidas até então, todos os katas e uma luta com regras, utilizando luvas e outra luta sem luvas, com as regras tradicionais do karate-do Goju-ryu. Lutar sem luvas com o Shihan Dai do dojo sempre foi uma experiência única, pois podia ver e “sentir” as técnicas sendo utilizadas de forma correta, com a força física e a força energética (Ki) circulando de tal maneira que se tornavam uma coisa só. Me lembro de uma vez que lutando com o Shihan Dai (Nagatani Sensei) ele me acertou um golpe no queixo (teisho ate) e em seguida outro teisho ate em meu estômago, o golpe em meu estômago fora tão forte que meu corpo saiu do solo, o que lhe permitiu golpear mais dois ou três teisho ates me atirando contra a parede do Dojo. O impacto foi tão forte que rachou a madeira da parede, fato que nosso aluno Felipe pôde constatar em sua visita ao Dojo, quando Nagatani Sensei lhe mostrou e disse rindo: “Isso foi o seu Sensei que fez….hahaha”. Este treinamento rígido foi que me moldou e mostrou os padoxos da arte, tenho e vou ter sempre, grande admiração e respeito pelo Nagatani Sensei, Shihan Dai do Shizuoka Goju-kan Honbu Dojo.
O teste foi duro e penoso, mas sobrevivi. Ao final com todos os alunos perfilados, pude ouvir meu nome sendo chamado à frente, me ajoelho à frente do Sensei e recebo de suas mãos a faixa preta, com o bordado de um lado da Goju-kai do Japão e do outro, meu nome. Uma emoção muito grande tomou conta de mim, lembrei de minha vida até aquele instante e por tudo que havia passado, olhei para a faixa e jurei que iria honrar tudo aquilo até a minha última respiração….

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