Archive for November 22, 2010

Conquista na África do Sul

Chegara a hora da decisão. Quem perdesse estaria fora do pódio e provavelmente veria seu sonho ser adiado por mais quatro anos. Nervosismo, tensão, todo tipo de pensamento vem em sua cabeça. Mas o que difere nessa hora é aquele que consegue controlar melhor suas emoções. Eu e meu brother Horácio havíamos passado por muitas coisas para estarmos ali, foram muitos os sacrifícios, muitos os treinos, muitas as dores e a vitória não era mais apenas um desejo, era o significado de tudo que representava aquele tempo, aquela nossa fase da vida. Apertamos as mãos, nos abraçamos e dissemos um para o outro: – “Vamos ganhar, viemos até aqui para vencer, vamos ganhar essa p…”.

Nos posicionamos na lateral do Koto, na ordem ficou determinado que seríamos a dupla “AO”, azul, portanto faríamos o Bunkai depois da dupla da Itália.

Enquanto eles executavam o Bunkai ficamos concentrados, focados no nosso objetivo que era dar o melhor de nós, fazermos um bunkai não apenas técnico, mas com espírito, com coração. Assim que eles terminaram, nos posicionamos para entrar e como se tomados por um transe, executamos o bunkai sem erros, sincronizados, com uma energia interligada e harmoniosa. Para aquele dia, para aquele instante de nossas vidas, foi perfeito, acabamos o bunkai e com toda aquela energia ainda pairando no ar, fomos ao nosso lado do koto esperar pela decisão nas banderias dos juízes. E após aqueles segundos de ansiedade e tensão intermináveis, o juiz central sinaliza com seu apito e todos os outros quatro juízes dão seu parecer. 5 X 0 azul. Contamos as bandeiras e nos abraçamos, não mais contendo a emoção. Choramos. Choramos por nós, por nosso país, por nossos Mestres e alunos, por nossas famílias e amigos, choramos porque sabíamos o que aquela arte representava em nossa vida. O representante do Chile veio nos cumprimentar e calorosamente nos parabenizar. Nossos alunos nos esperavam na saída do Koto e com abraços e lágrimas comemoravam também esta vitória de todos, pois era a primeira vez na história dos mundiais da Goju-ryu que o Brasil ganhara uma medalha nesta modalidade.

Antes de sairmos da área de competição, paramos para tirar uma foto com a nossa bandeira, a bandeira da Associação Shizuoka Goju-kan do Brasil, presente que nosso Mestre no Japão, havia dado quando voltei ao Brasil. Fiz uma prece e agradeci. Agradeci meu mestre no Japão que me ensinou e me mostrou as técnicas e os valores da arte e nosso saudoso mestre aqui do Brasil, Ryuzo Watanabe, que nos recebeu de braços abertos quando chegamos.

Andamos pelo ginásio, agora com aquela sensação de dever cumprido, e sem aquela pressão da competição, pudemos confraternizar mais com os atletas das outras delegações. Cumprimentei e troquei camisetas com a equipe da Indonésia, que como nós, também ficaram em terceiro lugar, tiramos fotos com a equipe do Japão, que haviam ficado em segundo, perdendo para a Suiça e que tinha um fato interessante: Um de seus técnicos, Kamogawa, era no passado meu algoz, que nos campeonatos estaduais da Província de Shizuoka sempre ficava com o primeiro lugar e era muito bom encontrá-lo ali, depois de quase quinze anos.

África do Sul

Saio de casa, com muitos pensamentos. A velha sensação de estar partindo para o desconhecido que nunca foi a sensação mais atrativa do mundo para mim desde sempre. Desde o primeiro dia de aula na escola, até as viagens pela seleção brasileira adulta de Karate. Engraçado, já que já viajei e competi centenas de vezes até aqui. Porém, é sempre assim. Sempre como se fosse para um mundo totalmente diferente, deixando tudo que eu conheço para trás. Deus que me perdoe dizer isso, mas eu sempre sinto que é uma despedida. Eu prefiro pensar que isso é um bom sinal, sinal de que deixo em casa a minha versão antiga, buscando mudo afora uma nova versão atualizada.

Parte o carro rumo ao aeroporto. Estamos indo para a África do Sul.
Quase quinze anos após  voltar do Japão com a faixa preta. Hoje como um homem adulto me lembro de momentos e pessoas importantes, que apesar da distância criada pelo tempo e pela distância geográfica, estão sempre presentes de uma forma quase paterna dentro do ser que aqui se encontra pensativo dentro de um carro acompanhado de pessoas queridas, mas de certa forma sozinho, no interior de seus pensamentos.
Nos encontramos com os outros atletas no aeroporto, todos, amigos. Com certeza, isso fez com que a viagem fosse divertida e o nervosismo ficasse em segundo plano.

Viagem cansativa e definitivamente o avião não é o melhor lugar para descansar as pernas .  Durante a viagem, procurei não pensar muito na competição. Tentei distrair-me com a viagem e com o pessoal, mas vez ou outra, inevitavelmente lembrava do quanto aquilo era importante para nós. Quando lembrava, surgia lá no fundo uma ansiedade que se não tomava cuidado, logo me levava para o campeonato,  para as situações e conseqüentemente para a  responsabilidade que caia sob os ombros.
Medo. Sempre acreditei que a coragem nada tem a ver com a falta desta sensação de temor, mas sim com aqueles indivíduos que tem o medo pela frente, mas avançam mesmo conhecendo as conseqüências de uma eventual derrota.
Não ter medo de nada para mim é mais inconseqüência do que coragem. Então sentir medo, e saber reconhecê-lo, já é um pedaço da coragem.

Chegando em Cape Town, e já transitando de van pela cidade, rumo ao hotel, a sensação nítida que fica, é  a de que realmente existem pessoas de realidades econômicas e sociais extremas naquele país. Uns com tanto, outro s com praticamente nada. Carrões circulando por bairros praticamente europeus e probreza, favelas e ônibus velhos  transportando só negros em partes mais pobres da cidade.
Serviço de transporte público que deixa a desejar. A impressão que fica, é que o transporte público é somente para os miseráveis. Que os ricos só andam de carrões e não existe meio termo entre um e o outro.  Em São Paulo por exemplo, existem inúmeras pessoas que deixam seus carros para irem trabalhar de ônibus e/ou metrô. Na África do Sul, não parece ser assim, nem de longe.

Entrando no clima do campeonato, visitamos os ginásio vazio. Apenas com as estruturas (tatamis e afins) sendo finalizadas para a competição. Aquele frio na barriga que havia acalmado durante a viagem, agora voltava para ficar de vez. Ali no meu estômago permaneceu, seja comigo ali naquele ginásio vazio ou mais tarde quando todos já fechavam os olhos em seus quartos no Hotel.

No primeiro dia de competições, nossos alunos vão bem. Uma medalha de bronze e uma disputa de medalha perdida. É um bom saldo de alunos que tenho treinado, uma nova geração da Shizuoka Goju-kan! Porém como se da noite para o dia tudo pudesse acontecer (erealmente pode) , no segundo dia de competição, o dia das disputas individuais das categorias adultas, todos nós vimos um por vez cair e deixar o sonho de ser o melhor do mundo ser adiado.
Fiz o meu melhor, mas sei que ali, eixsitiam pessoas mais capacitadas do que eu e por justiça, estas seguiram adiante. Porém isso me frustrou também por mais justo que tenha sido, já que só eu sei o quanto eu me preparei para estar ali. Sentando, já na arquibancada eu apenas lido com a certeza de que nada mais podia ter sido feito.

Decepcionados, eu e o meu irmão tivemos um atrito. Mas com um verdadeiro exemplo de sabedoria, ele me mostrou que deveríamos nos manter unidos, deixando toda frustração daquele dia para trás. Quando um quase coloca tudo à perder, o outro toma à rédea da situação. Acredito que isso mais do que nunca me mostrou porque somos uma verdadeira dupla, um verdadeiro time. O terceiro dia, o dia da disputa do Bunkai-Kata (em duplas, a dupla Brasileira para a disputa era formada por mim e pelo meu irmão) ainda estava por vir. No céu escuro de um dia de decepções, uma estrela cadente só pode ser um sinal. É assim que começa a nossa vitória.