Archive for December 23, 2010

Famicom Out

No ano de 1991, a nossa família também viu outro homem da família migrar para a terra do sol nascente. Desta vez, meu pai rumava com a missão de também trabalhar do outro lado do mundo em busca de dinheiro. 
Com a ida do meu pai, minha mãe teve de se virar comigo e com as minhas duas irmãs mais velhas. E assim, acabei me acostumando ou tendo que me acostumar com a idéia de ter as duas figuras masculinas de casa longe de nós. Eu era o homem da casa aos 9 anos de idade. Minha mãe buscava o pão do café da manhã e nós, nos virávamos por aqui.

Nem tudo era fácil e a rotina de telefonemas internacionais agora era mais constante e a choradeira em casa também. Para dificultar as coisas um pouco mais para a minha mãe, minha avó também veio à falecer. Esse deve ter sido o meu primeiro contato verdadeiro com a morte, com a ida do meu irmão e do meu pai para o Japão, a perda, parcialmente eu já tinha degustado.

A era dos video games continuava ali e mesmo do outro lado do mundo, o meu herói de sempre, meu irmão mais velho, tratou de tentar me encaixar nesse contexto me mandando um “Famicom” de lá. Porém, para a minha “sorte” o video game não funcionou por conta do valor histórico da nossa TV (leia-se pré-histórico). Tentativa frustrada, porém, valeu pela tentativa.

Entre as cartas que meu pai enviava, um belo dia ele me mandou um Game Boy, compensando assim a minha frustração do video game anterior que não funcionava. Sim, joguei até passar mal. Eu tinha um video game que não dependia da nossa velha e cansada TV. Ponto para o longínquo chefe de família.
Apesar da falta que faziam na minha vida nessa época, meu pai e meu irmão sempre tentavam compesar de alguma forma. Não posso negar que, eu tinha os robôs de brinquedo mais legais que eu já tinha visto naquela época. Então, sim, acredito que eles tiveram sucesso em amenizar essa falta, afinal, ter um game boy era legal demais.

O tempo passa rápido

O mundo dá muitas voltas e às vezes não vemos o tempo passar. Estava no Japão a um ano, meu pai também tinha deixado seu país natal para vir trabalhar e apesar de ser boa a sua presença, era triste saber que nossa família no Brasil contava agora com um membro a menos.
No Dojo, os treinamentos tornaram-se mais intensos e técnicos após ser promovido para faixa marrom.
Mas, uma mudança inesperada estava por vir. A terceirização dos serviços da empresa havia acabado e teria que iniciar em outro serviço, mas em outra cidade, outra Província.
Ao comunicar a notícia ao Sensei, ele me disse: “Entendo perfeitamente se você parar agora, você veio ao Japão a trabalho e Okayama-ken é bem longe…”
Mas na verdade, no meu íntimo, não tinha intenção, não queria parar, queria saber se o Sensei permitiria que eu fosse treinar nos finais de semana e se poderia dormir no Dojo quando viesse. O Sensei então disse que poderia sim, e gentilmente cedeu o quarto de hóspedes que ficava no primeiro andar do Dojo.
O novo trabalho era bom, trabalhava um turno de 12 horas, uma semana de dia outra de noite. Quando trabalhava de dia treinava em um porão desocupado que havia no alojamento e corria à margens do rio que cortava a cidade. Quando trabalhava a noite, muitas vezes de madrugada ficava treinando atrás das máquinas…..
Quando chegava o final de semana, pegava o ônibus e ia até a estação de trêm de Nariwa, pegava o trêm até Okayama para pegar o “Shinkansen” (trêm bala) até a cidade de Kakegawa, onde pegava outro trêm até Kikuagawa e pegava um ônibus até Sagara-cho. Este percurso levava em torno de seis horas, mas o fazia feliz, afinal de contas iria ver meu Sensei, treinar duro e rever meus amigos de Dojo. Depois do treino do domingo de manhã, fazia todo o trajeto de volta e lá pelas 20h estava chegando no meu alojamento, na cidade de Nariwa.
Foi neste período que ganhei meu primeiro torneio estadual, na categoria Kata adulto até faixa marrom. Fiquei muito feliz e claro noticiei logo para minha família que estava no Brasil e para o meu pai que estava no Japão, mas em outra Provínica.
A cidade de Nariwa é uma típica cidade japonesa de interior. Suas tradições e costumes, sua arquitetura, suas belezas naturais: As montanhas com suas cores marrom-avermelhadas por causa de suas árvores “Momiji” na ápoca do outono e depois o branco da neve. E, ao chegar a primavera o florescer do “Sakura” flor de cerejeira que embelezava toda a cidade.
O tempo passa rápido e já estava a quase um ano em Nariwa, quando meu Sensei me informou que eu participaria do próximo exame para Faixas Pretas, uma mistura de alegria e medo tomou conta de mim. Afinal de contas, será que eu estaria preparado? Seria que conseguiria? Será que eu havia me esforçado o suficiente? Será? Dormia todos os dias pensando nas perguntas e sem as respostas…..