Archive for January 24, 2011

Um dia em família

Não há sensação melhor do que reencontrar a família. Um dia de sábado tomando café da manhã com a família Saito completa novamente. Após voltarmos da escola onde havíamos deixado o meu irmão caçula, minha mãe não se continha de preocupação, como toda mãe, ficava pensando como meu irmão iria se sair na escola nova. Além de não dominar a língua japonesa, era o único brasileiro e a cultura e os costumes, apesar de sermos descendentes de japoneses, tinha suas diferenças. Ela contava os minutos e não via a hora de buscá-lo.
Quando voltou, chegou cheio de novidades. Crianças falam uma língua universal, a língua da amizade sincera.
Como era sábado, a noite eu iria ao Dojo do meu Sensei e levaria também meu irmão para assistir ao treino.
Conversamos sobre vários assuntos e parecia não acabar, rimos muito e a sensação de felicidade realmente parecia pairar no ar.
Queria mostrar muita coisa, queria levá-los a vários lugares, o Japão é um lugar muito longe, mas é um lugar muito bom para viver e também muito bonito.
O apartamento onde estávamos ficava perto do Estádio de Beisebol do time “Chunichi Dragons”, time que havia adotado, depois de aprender a gostar dos jogos que eram transmitidos pela televisão. Ao lado do estádio ficava o parque “Shie Gurando” que era aberto ao público e contava com uma enorme área gramada e uma grande pista para correr e caminhar.
Começamos a arrumar nossas coisas, minha mochila com kimono e demais equipamentos de treino e as coisas do meu irmão, afinal, ir até o Dojo era uma viagem, táxi, trem e ônibus, ia ser uma aventura para um garoto recém chegado do Brasil…..

Um Novo Mundo de Velhas Pessoas

Aeroporto de Nagoya. Meio apreensivos, estávamos ali eu, minha mãe e minhas duas irmãs. Olhando para os lados após pegar a bagagem na esteira (outra apreensão que me mata até hoje, odeio essas esteiras). Buscando por rostos conhecidos num lugar totalmente desconhecido. Enfim, aquilo era o Japão.
Entre uma olhada e outra para o lado, eis que avistamos meu pai. Juntamente com um funcionário da empreiteira ele tinha se locomovido de Shizuoka para Nagoya, para nos buscar com uma van.

A primeira impressão do país, na verdade acaba ficando para segundo plano. Pois ali, o melhor de tudo para todos nós, foi o reencontro. Matar a saudade sem dúvida foi muito mais importante.

Chegando no “Apato”(Apartamento) onde meu pai morava e que agora nós também, lembro de ter comido um Cup Noodles sensacional. Se naquela época não existia aquilo no Brasil, hoje você pode até encontrar, mas só nos mercados do Bairro da Liberdade(Bairro Japonês) em São Paulo. Mercados da Liberdade, que hoje em dia para mim, tem em suas prateleiras sinônimos de saudade.

O meu irmão mais velho de quem tanto sentiamos falta, também foi para Shizuoka, morar em Hamamatsu conosco. E de alguma forma, mesmo sendo ainda apenas um menino, eu me senti completo novamente mesmo que não soubesse muito bem com aquela idade, a importância de tal coisa.
Nos primeiros dias, tudo era novidade e literalmente parecia que estávamos num outro mundo. Apesar de sermos descendentes de japoneses, desde sempre fomos criados (nascidos) no Brasil. A diferença cultural, mesmo para nós que mantínhamos alguns costumes em nossa família, era grande e tudo tinha uma atratividade imensa,  ainda mais para mim que era uma criança.

Dormir no chão, o quarto com piso de tatame, tirar os sapatos para entrar dentro da sua própria casa, as ruas limpas, sem contar os atrativos para diversão, a segurança, a estabilidade geral daquele lugar, era tudo muito fácil de ser absorvido, pois era demais.

Porém após menos de uma semana o que era lindo e maravilhoso, se mostrou um tanto quanto difícil. Era hora de encarar a escola. No Japão, por lei. Nenhuma criança pode ficar sem estudar sendo assim, eu, com meus poucos dias de Japão e com um domínio da língua japonesa na mesma proporção, em um sábado chuvoso acordava com uma ansiedade monstruosa no peito. Ali sim, começava o meu desafio…