Archive for February 21, 2011

Primeiro dia Saito Brothers

Chegara sábado. Dia que iríamos pegar o táxi, pegar o trem até Kikugawa, pegar o ônibus até a cidade de Sagara e irmos até a loja de esportes da Kondo-san, comprar o primeiro Karate-gi do meu brother. Era um karate-gi de iniciante, confesso, da marca Fuji Daruma, mas isso não tinha a menor importância. Era o início de uma grande parceria, o início dos Saito Brothers dentro do cenário do Karate.
Era o primeiro dia de treinamento do Horácio e como qualquer aluno de dez anos, teve as suas dificuldades, mas aparentemente, tirou tudo de letra.
O treinamento era duro, era rígido, não cabendo diferenças entre idade ou sexo. A rigidez com que o Sensei Nagatani conduzia a aula era perfeitamente notada, afinal de contas, eram mais de dez crianças entre adultos, e não se ouvia nada além dos sons característicos do treinamento, sua voz de comando e nossos Kiais.
O treinamento seguia todo o padrão tradicional, kihon, kihon ido, katas, técnicas de kumite, muita ênfase na aplicabilidade das técnicas e tudo tinha que ter “Imi – 意味” tinha que ter siginificado. Que na prática, na verdade é o que mais importa. Uma ação sem significado, é um mero movimento.
No final do treino, meu brother parecia cansado, mas com um semblante de felicidade em seu rosto. E claro, para mim, isso era motivo de muito orgulho e alegria. O primeiro passo havia sido dado.
Daquela figura rígida que havia dado o treino instantes atrás , não ficava nada do Sensei Nagatani. Após o treino, ele era uma pessoa sorridente, cheio de curiosidades sobre o Brasil e brincalhão. Sensei Nagatani tinha uma loja de pães na cidade e após terminarmos de nos arrumar, ele se ofereceu de nos levar até a estação de trem de Kikugawa, pois dizia que não devíamos gastar dinheiro com o táxi. No caminho, ele passou em sua loja de pães e voltou com uma sacola cheia deles.
Este foi o primeiro sábado, de muitos, que executaríamos a mesma rotina, de muitos que voltaríamos conversando e comendo pão com recheio de yakisoba, momentos únicos e que a memória, graças à Deus, guarda com carinho….

O nó da minha vida

Meu primeiro Karate-Gi (popularmente conhecido como Kimono no Brasil) foi um de uma marca chamada Fuji Daruma. Era um Karate-Gi de iniciante. Para quem não sabe, óbviamente o Japão sendo o país do Karate-Do, também é o país dos materiais de Karate-Do. Ou seja, kimonos (vou chamar assim para ficar mais fácil) japoneses para quem gosta da coisa, são realmente os melhores. É claro que isso depende muito do seu senso de Karate-Do. Não estou falando dos Kimonos molengões de shiai-kumite confeccionados para serem leves. Estou falando de peso, de Heavy Weight, do tradicional Kimono de lona.

Meu Fuji Daruma era um Karate-Gi simples, de iniciante mesmo. Mas a aura da coisa estava na verdade, muito mais embutida no ritual de colocar o Kimono e não na pompa deste mesmo. Era tão bacana vestir aquele Kimono. Devidamente vestido, ali na aula de Karate eu me sentia mais próximo do que o meu irmão era. E isso me fazia feliz. O engraçado é que hoje, mesmo após tantos anos e mesmo após os Karate-Gis pomposos de lona japonesa, continua sendo a mesma sensação para mim.

Assim como tantas coisas dadas pelo meu irmão, a minha primeira faixa dentro da minha história dentro do Karate-Do, também foi algo que herdei dele. Talvez aquela faixa tenha simbolizado o que viria pela frente.

Era uma fixa da Mizuno. Grossa, mas muito grossa e difícil de ser amarrada por um moleque de dez anos. Enquanto os outros garotos faixas brancas da minha idade do dojo tinham faixas maleáveis, eu tinha aquela Mizuno que eu mal conseguia apertar o nó sozinho.

É claro que naquele momento eu não soube enxergar a coisa desta forma, mas ali estava escrito que a herança viria com uma boa dose de esforço e responsabilidade. Eu assumi ali mesmo sem saber, o compromisso de fazer o meu melhor, me virar como pudesse e fazer valer a fé do meu irmão. Não é porque tinha um irmão mais velho que era faixa preta que as coisas seriam mais fáceis para mim, lógico que não.

Por onde andam aquelas faixas tão maleáveis daquela época… Aquela velha Mizuno durona continua aqui, bem viva e com a mesma dureza de sempre…