Archive for March 24, 2011

Logo adiante

Se eu fechar os meus olhos por alguns segundos, vou lembrar daquele calor típico do verão japonês. Lembrarei de um túnel e uma estrada que sobe rumo às montanhas. O sol brilha de um jeito que só no Japão brilha e se eu for um pouco além destes segundos, posso sentir o cheiro da natureza e ouvir os sons que ela produz com tanta perfeição.
Se eu fizer um minuto de silêncio e fechar os meus olhos, vou lembrar daquele senhor que nos recebu em sua casa de forma tão gentil, por mais que nós fossemos parentes tão distantes vindos de uma terra que ele nunca conheceu. Vou lembrar do que comemos naquele restaurante e vou lembrar do chiclete de menta que vinha acompanhando a refeição para aliviar o nosso hálito pós almoço.
Vou lembrar de jogar uma partida de video game em algum mercadinho local contra o meu primo que tinha ido passear no Japão.
Vou lembrar do quanto brincamos e do quanto era medonha aquela máscara de Oni pendurada na parede do hotel, quando era vista de noite, iluminada apenas pelas luzes das máquinas de refrigerante.
Essas são as minhas lembranças de Fukushima, recordadas em um minuto de silêncio. Por alguns dias, o meu sangue voltou para casa.
Hoje, Fukushima sofre com os problemas trazidos pelo tsunami.
Hoje completo 29 anos de vida. E assim como eu desejo que Fukushima (não só Fukushima, mas todo o Japão) tenha forças para seguir adiante, cada vez mais forte, superando TODAS as dificuldades, eu também desejo para mim o mesmo. Seguir melhor, seguir mais forte, seguir mais intenso, melhor à cada dia.

Ganbare Nippon

Em todos os anos em que passamos no Japão, uma das palavras que mais ouvimos era “Ganbare” ou seja “Esforce-se pelo seu melhor”, “Persevere, continue”. Sempre vindo de pessoas que respeitamos e admiramos de um país onde sempre tem alguma lição a nos dar. Talvez alguns aspectos são estranhos ao povo ocidental, principalmente ao povo brasileiro, que me desculpe, temos o mal hábito de sempre adotarmos uma posição crítica, mesmo às vezes não entendendo do assunto a fundo, nos apoiando no fato de simplesmente acharmos que algo deve ser assim. O fato ocorrido na semana passada, do terremoto seguido de tsunami e agora a crise nuclear, nos traz mais uma vez um ensinamento, um ensinamento de ordem, de disciplina, de auto-controle mediante a uma situação crítica. A imagem das pessoas em fila esperando por comida, água, combustível, sem levar vantagem, sem desordem, sem desespero. Não que elas não estivessem assustadas, com medo, com fome, com frio, muito pelo contrário, não imagino o quanto estas pessoas estivessem abaladas com o ocorrido, mas, nada disso mudou o que se tem por dentro, o que se aprende desde criança na educação. Honestidade, caráter, pensamento no próximo, desapego e falta de egoísmo. Ao invés de criticarmos algo motivado apenas pelo coração, com total falta de raciocínio (como o repórter Marcos Uchoa da rede Globo) que disse que: “Se todo japonês fizesse o que os brasileiros estavam fazendo, não tinha ninguém passando fome…”, pelo fato de alguns brasileiros terem feito uma caravana para levar comida até as áreas afetadas. O que “ele” não sabe, é que aquele é um país organizado, e não que o “povo” não pensa no próximo. Talvez motivado por esta reportagem com este cometário “absurdo” alguns brasileiros resolveram também fazer a caravana. Resultado final, tentaram passar por uma área de risco, com muita neve, ficaram perdidos, acabou a gasolina dos carros e tiveram que ser resgatados por uma equipe da polícia, que na verdade deveriam estar atendendo os verdadeiros necessitados. Se não há nada de produtivo no que se vai falar, melhor não falar nada….

Admiro aquele país e aquele povo, não tenho dúvidas de que superarão mais esta provação e se reerguirão de forma rápida e organizada.

Nada mais justo do que desejar àquele povo e àquele país, o que sempre ouvimos deles:

“Ganbare Nippon!!!!!”