Archive for May 23, 2011

Ser o Caminho

Nossos dias no Japão eram sempre cercados de atividades. Todos os anos em que passei lá na presença de minha família, posso dizer com total certeza, que não houve um único dia em que não tínhamos algo para fazermos juntos, eu e meu irmão caçula Horácio. Uma das coisas da qual me orgulho, é o fato de que pude participar ativimente para que ele pegasse gosto pelo “Caminho”. A prática de qualquer arte marcial japonesa envolve todo o fator de conhecimento dos conceitos de guerra, da autodefesa e da cultura do físico. Mas, o que a torna realmente válida para a sociedade é o fato de sua filosofia, da sua preocupação com o melhoramento e o aperfeiçoamento do ser humano.
Neste contexto, a prática do “Caminho” se torna essencial.
– Quando iniciamos a caminhada, temos que nos focar em permanecer no caminho, pois nele sempre haverá obstáculos e imprevistos. A dificuldade é continuar, não desistir, independemente de qual seja a justificativa, a permanência no caminho é que lhe mostrará sua importância.
– Depois, a caminhada passa a ter o caráter de atenção, caminhar e também se concentrar no caminho. Atenção aos detalhes, já que neste estágio, não basta apenas chegar, mas saber por onde caminhou.
– Após muitos anos no caminho, os obstáculos já parecem familiares e já não são suficientes para nos desmotivar e nos fazer desistir, caminhar já não é dificuldade, e os detalhes são sempre notados. Mas o final do caminho ainda parece estar longe e o objetivo parece ser inatingível. É aí que devemos deixar de ser aquele que caminha para passar a “ser” o Caminho.
E todos aqueles dias em que eu buscava trilhar o caminho, indiretamente mostrava ao Horácio a importância daquilo tudo. Claro que, tudo da forma tradicional japonesa, sem explicações, sem desculpas, apenas fazer o que tinha que ser feito. Lembro dos nossos vários caminhos percorridos no tempo em que vivemos no Japão. Os caminhos de corrida em volta do campo, os caminhos de trem e ônibus até chegarmos no Dojo, os caminhos de diversão nos “Game Centers” para jogar Street Fighter, os caminhos de táxi, a pé e de trem para ir dar treino. Muitos eram os caminhos que percorríamos juntos naquela época, mas, ao olhar para trás, me orgulho de ver que todo o esforço que nos fez chegar até aqui, hoje, nos fez mais do que apenas chegar, nos fez “sermos” o Caminho……

A arena de inverno

Está frio, saio correndo de manhã, antes do trânsito ficar caótico na cidade. As mãos estão geladas, ao final da corrida, a pele do rosto arde ressecada pelo vento gelado e literalmente sai fumaça(vapor) do meu corpo. Ah, como eu gosto dessa sensação.
Caminhando de volta para casa, fumaçando e ofegante passo pelas pessoas que me olham de forma meio estranha, com certo ar de espanto. Eu ignoro os olhares e mergulho na razão de estar ali, sozinho, voltando para casa exausto entre aqueles olhares curiosos:
“O vento quase não sopra no inverno daquele lugar. A iluminação do campo era suficiente para fazer daquele treino “O” evento do dia. Naquele dia, não tinha treino de Karate no Dojo e o meu irmão trabalhava no período diurno, sendo assim, essa hora vaga do dia era o nosso espaço para “fazer acontecer”.

Treinávamos ali. Corríamos ou melhor, meu irmão corria e eu sofria. Quantas vezes acabei sendo um atraso para o treinamento do meu irmão, hoje em dia eu sorrio de canto de boca quando lembro dessas cenas. A “dor no baço” era terrível e sempre vinha seguida da “dor no ombro”. Tinha vontade de parar, de andar, mas sempre meu irmão reduzia a marcha e ao meu lado corria e dizia “só mais uma volta, só mais um pouco”. Aos trancos e solavancos, sempre dava para terminar o treino.

Após a corrida, vinham os Kihons, os Katas, a movimentação de Shiai Kumite e por último, as flexões de mãos fechadas em cima das pedras e os socos nas árvores que cercavam o campo.

As flexões deixavam sempre a pele afundada, com a marca das pedras nos dedos. Quem tinha mais marcas prfundas era o vencedor moral daquele exercício, assim como quem arrancasse mais “casca” das árvores com socos era o vencedor da segunda etapa.”

Caminhando de volta para casa, voltando do treino. Exatamente onde eu deveria estar. No frio, com a pele ressecada e ardendo. Ali, não é só sobre ganhar, perder, ser melhor técnicamente ou fisicamente.
Físico você lapida, técnica você aprende, você ensina. Mas um ideal, você assume.
Treinar Karate-Do, é correr, é lutar e acima tudo, é conflitar suas verdades de ontem com as de hoje dizendo para si mesmo, quem você quer ser amanhã.

Voltando da corrida abrindo o portão de casa, eu sempre tenho as minhas respostas.