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Aprendendo sobre grandeza

Lembro-me bem daquele dia, até então eu nunca tinha visto o meu irmão ceder, perder e consequentemente cair. Caíram ali todos os treinos, todo o esforço para competir e vencer. Era estranho, porque dentro da minha cabeça não parecia ser real, um final não programado para o campeonato daquele dia. Ver o meu deitado sendo atentdido pelos médicos foi um balde de água fria para mim.
Eu tinha crescido seguindo os passos do meu irmão e tinha me acostumado à ve-lo sempre à frente de tudo e talvez até de todos. Eu nunca tinha visto o meu irmão sendo parado por nada, nem por dor, nem por cansaço, nem por “falta de tempo”, por problemas financeiros ou de trabalho, mas naquele dia um chute o fez parar.

Sentados na sala de espera do hospital. Parando para me concetrar agora no que estou escrevendo, lembro e sinto perfeitamente aquela apreensão que rondava aquela sala. Eu e minha família, saímos do campeonato para ver a situação da cabeça do meu irmão.

Feitos os exames, lembro de na saída do hospital ter visto meu irmão abatido. Talvez naquela época, todos tenham pensado que era por conta da dor causada pelo chute ou coisa assim, mas eu sabia de alguma forma, eu sei que não era nada daquilo. Eu não sei explicar como, mas nos olhos do meu irmão mesmo que ele tentasse se manter firme como um budoka tem que ser com a dor, eu via de alguma forma que o que doia era o seu orgulho, a sua vontade e todos aqueles dias treinando para aquele campeonato. Mas é claro que isso, só hoje eu sei colocar em palavras, mesmo após tantos anos passados até aqui, o motivo é simples, certas coisas você só sabe por completo se aprende na prática.

Por algum tempo eu me questionei. Aquela foi a primeira, mas não foi a última vez que eu vi um ídolo cair. Hoje sei mais do que qualquer outra pessoa, de que “material” é feito um ídolo, do que é feito o meu irmão e acredito que os ídolos caem pelo simples e mais belo fator de todos, aquele que justifica a grandeza, a fraqueza ao mesmo tempo. Eles são humanos.

Parece básico e óbvio, mas não é. A grandeza da idolatria está exatamente no fato destes ídolos serem humanos no início, no meio e no fim. As pessoas geralmente os idolatram pelas conquistas, pelo presente, pelo que é visto somente agora e pelo brilhos de seus feitos. Assim muitas vezes é fácil achar que estas pessoas são, estas conquistas, o que é de longe uma maneira ingênua, inocente e em alguns casos, até ignorante de ver as coisas.

Por trás das conquistas, há lembranças de vitórias, mas certamente há muito mais histórias de decepções que se transformam em lendas da superação.

Então eu volto à lembrar daquele dia, admirando hoje como adulto os grandes feitos daqueles seres que sempre, por mais humanos que fossem, encontraram uma maneira de elevar o “nível do jogo”. Falhando vez ou outra, mas nos ensinando sempre a arte de nunca desistir da persguição pela grandeza, num recomeço cada vez maior, mais forte que o anterior, que às vezes nos fazem esquecer de que a essência dessa força é meramente o fato de sermos antes e depois de tudo, humanos.

Ali, observando o meu irmão saindo do hospital, eu realmente comecei à aprender.

Ser o Caminho

Muitas vezes, as pessoas olham um determinado “Campeão” ou´”Ídolo” e imaginam que aquele instante é único e que para se chegar até alí, o caminho foi feito apenas de vitórias e conquistas. O caminho daqueles que chegam é sempre constituido de derrotas e frustrações. A diferença no caso é que a grande maioria desiste dos seus objetivos quando lhe é conveniente, e a justificativa sempre será convincente, enquanto que para outros, tudo será sempre usado como combustível para se alcançar o objetivo, sendo este fator bom ou ruim, nunca dando abertura para a única coisa que pode te tirar do caminho, a desistência.
Lembro-me que em todos os anos em que vivi no Japão, contabilizei muito mais derrotas do que vitórias. Isto não significa que encarava as coisas como um fracasso, muito pelo contrário, visualizava tudo como uma forma de aprender com os erros, corrigí-los e fortalecer a vontade de vencer.
Lembro-me que em 1992 no Campeonato Estadual de Shizuoka, em minha luta (que no Japão não tem divisão de peso) que fiz com um americano chamado MacDonald, no momento em que apliquei um giyaku-zuki, ele aplicou um ura-mawashi-geri que por infelicidade acabou pegando com o calcanhar na parte superior da minha cabeça, onde não havia protetor. Restultado: Hospital, tumografia, coágulo que depois do dois dias desceu para o olho direito e uma semana sem trabalhar sob observação médica. Claro que esta não foi a minha única derrota e nem que eu goste de relembrar, mas me fez repensar bastante na época. Pensava que se quisesse continuar a competir teria que melhorar muito, pois sabia que aquele acidente era fruto “sim” da minha falta de defesa e não de qualquer outro culpado. Mas este fato também serviu para que entendesse a diferença entre percorrer o caminho e ser o caminho. Quando percorremos o caminho, temos os obstáculos, temos as dificuldades, mas se por acaso resolvermos adiar ou protelar, o caminho continuará a existir. Quando, depois de muito tempo percorrendo o caminho, resolvermos “ser” o caminho, a responsabilidade aumenta, pois se você protelar ou adiar, o Caminho “para”e fica dependendo dos seus passos para existir.
Lembro-me que retornei aos treinamentos em menos de um mês com a autorização dos médicos, mas competir, demorou mais de seis meses. Queria estar apto e provar a mim mesmo que eu poderia “ser o Caminho” desde então.
Meu objetivo ainda está longe de ser alcançado, e tenho plena consciência de que ainda preciso melhorar muito, mas ser o caminho é uma escolha, e esta fora feita com sinceridade, portanto acordar todos os dias e dar os passos, é parte já da vida e desistir já não faz mais parte do meu vocabulário há muito, muito tempo…..