Archive for July 28, 2011

O direito conveniente

Seguindo por aqueles dias, muitas vezes me sentia cansado ou me sentia no direito de estar cansado. Meu irmão tinha aquela jornada de trabalho absurda, trabalhando de noite, dormindo algumas horas de dia e treinando no tempo que lhe restava, mas mesmo assim ele nunca se dava o direito de não fazer o que tinha de fazer pelo crescimento do seu Karate, que nesse caso é uma coisa só: Treinar.

Vez ou outra eu tinha vontade de estar fazendo outras coisas, mas sempre de alguma forma fui levado pelo meu irmão para o lado do treino. Na maioria das vezes em que isso acontecia, eu não entendia bem como tinha parado ali, já que horas antes não estava com a mínima vontade de treinar. Uma vez estando ali treinando, aquela vontade(ou falta dessa) parecia algo que já tinha ficado para trás como se aquilo tivesse me ocorrido há um longo tempo atrás e tudo ficava bem, eu me sentia bem.

Durante muito tempo da minha infância/adolescência, eu vivenciei dias assim. Conflitando entre o meu direito de não fazer e o fazer, que de fato me trouxe, que leva adiante. Com um bom exemplo que tive, com um guia que tive naquela época eu pude aprender um bocado sobre “quem você quer ser”. O verdadeiro ganho, nunca vem até você apenas na hora que lhe convém. Às vezes(na maioria das, para não dizer TODAS) é necessário ir muito além do que convém. A conveniência sempre equivale às justificativas para quem você é hoje que nunca servem para quem você pretende ser amanhã. Então se a justificativa existe porque é conveniente, ela nunca fará o menor sentindo para o dia de amanhã.

Seguindo por esses dias aqui, é a velha história de sempre. Todos possuem mil motivos para não fazer, mas o que interessa para o Karate-Do, são apenas os poucos, que tem apenas um motivo para fazer.

Competição ou Tradicional

Em todos os dias em que vivi no Japão, não houve um único dia sequer que eu não aprendesse algo novo. Seja algo realmente novo ou algo novo sobre uma coisa conhecida. Existe uma grande discussão sobre competir, que alguns afirmam que a competição subtrai a tradição da arte. Eu particularmente discordo disso. No Dojo do nosso Mestre em Sagara, os treinos sempre foram tradicionais e lá pude aprender com ele, os valores disso. Mas também foi com ele que aprendi que a competição se faz importante dentro do crescimento da pessoa nos tempos modernos, principalmente entre as crianças. Lembro que todas as crianças e jovens competiam nos Campeonatos Estaduais, Escolares, Colegiais, Universitários e Nacionais, não perdendo com isso sua tradição. O que se faz de errado, na verdade, (isso aqui no Brasil) é que alguns instrutores seguem o caminho mais fácil, que é optar pelo que lhe é conveniente, ou seja, aquele que opta só pela competição se torna um “Técnico” específico de algo (shiai-kumite ou kata), o praticante se torna “Atleta” também específico e o que é tradicional se torna “arcáico”. O inverso também acontece, que são aqueles que se dizem tradicionais, defendendo o fato de que o são só por não estar na competição. A grande verdade é que a grande maioria não está nas competições por falta de capacidade de vencer mesmo.
O tempo que estive lá pude ver de perto uma realidade diferente. Lá o ego não é almejado como aqui, e ser tradicional ou da competição, no final das contas não faz a menor diferença, porque o que vale não é o que o indivíduo se autointitula e sim o que ele faz de produtivo com isso.
Ser tradicional é seguir os ensinamentos do karate-do à risca, sem desculpas e sem conveniência, simpels assim (notem bem, simples, não fácil).
Lembro de assistir pela NHK todos os anos, geralmente no mês de dezembro, o Campeonato Nacional da JKF (Japan Karate-do Federation), onde disputam os melhores, sim os melhores. Sem divisão de peso e sem divisão de estilos. Lá estavam os melhores representantes de suas entidades (Goju-ryu, Shotokan-ryu, JKA, Wado-ryu, Shito-ryu, Universidades, pois o Nacional Oficial de Karate é um só) disputando ponto a ponto, provando na prática o que muitos gostam de teorizar. Dá gosto de assistir!!!!!
De todas as técnicas que aprendi com meu Mestre, o que eu admirava mesmo nele, era esta sabedoria, esta forma de ver e viver os dias. Ser um Mestre, para ter realmente algo de valor para deixar às futuras gerações, isto é o que vale de verdade…..