Archive for August 22, 2011

O Caminho que nos une

Estar todos os dias juntos, pode ser para muitos, motivo para conflitos, discussões e desentendimentos. Mas, para mim era uma coisa especial. Por se tratar da minha família, sabia o quanto era ruim ficar longe deles, por ter tido como experiência dois anos sozinho no Japão. No caso do meu irmão caçula, além deste fato, tinha agora também a responsabilidade de mostrar a ele o Caminho certo, correto e justo do Karate-do Goju-ryu que estávamos trilhando. Nos dias em que tínhamos que ir ao Dojo de Hamakita, íamos sempre conversando sobre vários assuntos no táxi, depois no trem e depois andando, até chegar no Dojo. Sempre penso na sabedoria das atitudes do meu Mestre, mesmo que na verdade não sabia os verdadeiros porquês, vindo a entendê-los muito tempo depois.
Poder conversar com o Horácio praticamente em tempo integral, nos fez unir ainda mais, não apenas como irmãos, mas como parceiros de treino, o ato de aprender e ensinar era constante e por muitas vezes, não se sabia ao certo quem estava assumindo qual papel. O ato de ensinar requer muita humildade para que sua opinião não se torne única e que não se convença de que se sabe tudo, para não perder a oportunidade de aprender sempre e com qualquer pessoa.
Nosso Caminho se tornou um só, mesmo sendo trilhado por duas pessoas. O Caminho do Karate-do, o Caminho da família, o Caminho dos irmãos de sangue e da amizade.
Várias foram as ocasiões em que a dor e o sacrifício, forçaram uma lágrima a escorrer pelo rosto marcado. Mas com certeza, também foram várias as ocasiões onde o sorriso era a demonstração de uma meta alcançada, de um obstáculo transposto ou um sentimento real de felicidade.
Nenhum Caminho pode ser completo, se não houver como objetivo final a busca pela Felicidade e pelo aperfeiçoamento do ser humano como um todo. Sendo assim, nada seria de utilidade se não fosse um Caminho para ser percorrido por mais pessoas e não por uma única somente.
Este é o nosso Caminho…..
SAITO KYODAI

Um trajeto mental

Durante esse período, onde tudo era mais intenso, eu tive que lidar com muitas pedras no sapato. Treinando sete dias por semana em três lugares diferentes, não havia lugar para me esconder ou fugir. Talvez eu possa dizer que este período foi o mais desconfortável de todos, porque tinha que provar alguma coisa todos os dias.

Treinando no Dojo de Sagara, basicamente era sempre uma questão de provar para si mesmo. O Dojo era longe, o caminho de carro(quando iamos de carro de carona) ou de trem tinha tempo necessário para que sempre hovesse um conflito entre as minhas razões mundanas para não querer ir e a minha vontade de treinar. Durante este trajeto muitas vezes na minha cabeça as razões mundanas falavam alto e a vontade de ir treinar só aparecia quando estavamos parando o carro, chegando no Dojo.

Independente da condição mental e dos conflitos de “fazer ou não fazer”, uma vez estando ali, rumando para algum lugar, não há como não fazer. Estar indo para algum lugar já é uma decisão, logo essa batalha mental acaba não fazendo o menor sentido. Uma vez estando em movimento, percorrendo um caminho para algum lugar, quer dizer que não é hora de decisões porque isso já foi decidido antes de você iniciar o movimento. O início é a decisão, percorrer a distância é uma constante afirmação.

Creio que por muitas vezes as pessoas deixam de viver, colher muitas coisas para premeditar o que lhes espera adiante. Algumas vezes estas pessoas são movidas pela sensatez, mas em muitas outras são movidas apenas por esse conflito mental. Fazendo escolhas onde não cabem escolhas, só afirmações.

Claro, se há um desafio adiante, onde você sabe que algo difícil lhe espera, é natural temer, duvidar ou questionar, pois acredito que a grande vitória está no fato de entrar em choque e vencer tudo isso de fato. Mas a questão mora em quantas imersões você teve nesses conflitos de verdade ao longo dos anos. A tentativa é o que molda as pessoas. O teste é a tentativa, então só perde realmente quem não tenta. Quem na mente, já perdeu.

O carro para, são sete e meia da noite. Sagara Dojo, até o fim.