Archive for September 29, 2011

Aquela semana

Era boa aquela sensação, de olhar para estante da minha casa e ver aquele troféu ali. Pela primeira vez na vida eu entendi o verdadeiro valor de troféus e medalhas. Ao ficar ali, olhando para aquele troféu, eu podia viver ou reviver aquela sensação. Materialmente, esses prêmios pouco tem valor, já que o custo financeiro real de um troféu ou medalha não é alto. Daria perfeitamente para qualquer um ligar para uma loja ou fábrica e encomendar o seu sem problema algum, basta pagar o dinheiro. Mas todos sabem ou pelo menos deveriam saber que não é disso que se trata.

Um campeão há de merecer a sua condição de campeão. E qualquer troféu ou medalha, deve ter merecido parar ali na sua estante. Por mais que sejam objetos fabricados de forma industrial e entregues pelas mãos de outras pessoas, um troféu ganho é o reflexo de quem você foi até chegar ali.

Uns são mais bonitos que os outros, uns são bem concebidos, outros nem tanto, o que importa mesmo é o que você vê nestes objetos e ali, eu só via orgulho. Um orgulho meu por ter treinado duro, por não ter recuado quando senti medo, insegurança ou vontade de dar um passo para trás, um orgulho de ter sido forte nos dias em que me achava fraco e um orgulho enorme, por ter honrado a fé das pessoas que acreditavam em mim. O objeto era o orgulho do meu irmão e da minha família também, talvez esse tenha sido o maior dos orgulhos ao olhar para aquele troféu.

Na semana seguinte, lembro de ter levado para a escola, um recorte do jornal onde foi publicado o resultado do campeonato e foi uma semana muito feliz. Queria eu que aquela sensação durasse para sempre, mas não dura, e é exatamente por isso que no dia seguinte já é necessário fazer tudo de novo, em busca de outra conquista, em busca de outra “semana de campeão”.

Desde então, competir é uma batalha pelo orulho, por esse mesmo velho orgulho, por esta mesma velha sensação, pela vontade de viver sempre aquela semana.

Olhando ali para aquele troféu na estante, de certa forma era olhar para todos os outros que vinham a seguir.

Se tornar Campeão

Ser Campeão em um Campeonato Japonês de Karate já tem as suas dificuldades naturais, por se tratar de uma arte marcial altamente competitiva em sua terra natal. Ser Campeão sendo um estrangeiro, com certeza esta dificuldade aumenta consideravelmente. Aquele ginásio B&G sempre me trouxe boas lembranças, onde todo ano acontecia o Shizuoka Goju-kai Taikai (Campeonato da Província de Shizuoka de Karate-do Goju-kai) e agora lá estava meu irmão buscando trilhar seu caminho com seus próprios pés.
Vê-lo ali competindo com alguns atletas já conhecidos e mais experientes, por si só já era motivo de orgulho. Saber que todo o treinamento cobrado até então, seria posto em prática, torcer somente era pouco. Era como se eu estivesse lá dentro do koto também…
Passar o dia naquele ginásio era como uma festa em família, pois além do Horácio, nossa família ia também e os alunos e pais do nosso Dojo já faziam parte não apenas dos nossos treinos, mas também de nossas vidas. Comer obentou na hora do almoço, deixar os sapatos na entrada do Ginásio, ver as crianças levantarem a mão direita para anunciar o nome do kata, usar capacete da mizuno para lutar, coisas que só vemos e desfrutamos quando se compete no Japão.
Melhor ainda do que passar um dia agradável é ver o Horácio vencer a categoria dele, não pelo título ou troféu em si, mas por tudo que aquilo significava. Ver o esforço dele sendo de certa forma recompensado, dando início a uma carreira esportiva digna de histórias, era muito gratificante e também motivo de orgulho.
Aquela era a semente dos Saito Brothers no karate …..
Horácio Saito – Campeão