Archive for January 30, 2012

Uma nova etapa

Por mais que eu não pensasse na separação da família, o dia acabou chegando.
A caminho do aeroporto, tentava manter o tom descontraído, afinal de contas estava prestes a ficar novamente sem as pessoas que tanto amava.
Confesso que não consigo me lembrar muito dos pensamentos que tive naquela época, até porque sei que procurava não pensar em nada. Já havia passado por aquela situação uma vez quando deixei-os no Brasil e vim para o Japão, agora a situação era inversa, eles voltariam ao Brasil e eu ficaria no Japão. Porém, agora não era apenas o fato de sermos uma família, eu estava também perdendo um parceiro, um grande companheiro.
Abraçá-los novamente na porta do embarque era algo não só dolorido, mas é como se todo sentimento estivesse se esvaindo de dentro do coração e dentro dele ficasse somente o vazio.
Era necessário a minha permanência no Japão por mais um tempo, sabia disso, mas era difícil conter a emoção daquela despedida.
Abracei minha mãe e novamente estávamos nos separando, sem palavras, apenas a força do abraço e as lágrimas a escorrer pelo rosto. É difícil abrir os braços, pois nesta hora você sabe que isto significa deixar partir. Foi assim que abracei também minhas irmãs Simone e Melissa, era tudo muito intenso, era um sentimento que parecia rasgar a pele.
Ao abraçar meu irmão, sentia como se parte de mim estivesse sendo arrancada, disse a ele: “É como se estivessem arrancando meu braço direito……”. Dor e vazio, era o que ficaria.
Vê-los partindo reforçou ainda mais o significado de minha decisão de ficar. Precisava não apenas treinar, mas tinha que me tornar o melhor.
Pensei baixinho, enquanto eles desapareciam de minha visão: “Ficarei aqui e me tornarei bom o suficiente para retornar ao Brasil junto à vocês e honrar nossa família, meu Mestre e nossa escola.”
E, em companhia do silêncio, retornei ao apartamento, que agora estaria mais vazio…..

O seu valor

Naquele tempo, eu nunca tive a real noção do que tudo aquilo significava. Muitas vezes as lições vinham sem que eu soubesse ou as enxergasse de forma clara.
Mas nem de longe isso quer dizer que eu não aprendia. Pelo contrário. Aprendia sem saber que estava aprendendo.

Prestes à voltar para o Brasil, eu já não era mais aquele mesmo menino que chegou ali naquela terra sem saber dos costumes e da língua local. Talvez nesta época, fosse muito mais um japonês do que um brasileiro. Este, certamente é o maior valor que um estrangeiro pode mostrar. Eu quis aprender, eu quis fazer parte, quis ser como eles e naquele momento esse era o meu maior valor.

Em qualquer vida, em qualquer raça, em qualquer existência, a vontade de aprender, de ser, sempre é o que acaba definindo o valor de uma pessoa. O que se faz para ser alguém?

É o tal do ser antes do ter. Eu nunca cobicei nada sem merecimento. Eu nunca quis ter nada sem ser alguma coisa antes disso e para ser, é necessário aprender e muito todos os dias.

Estava triste por em breve ter que deixar tudo aquilo para trás. Todas as pessoas, amigos, lugares e é claro, uma parte importante da minha família.

Talvez eu tenha evitado esses pensamentos ou talvez eu tenha escolhido de alguma forma não pensar sobre isso, mas é fato que mais uma vez eu ia ter que me despedir da minha grande referência e acima de tudo, do meu melhor amigo. O meu irmão.

As pessoas estavam tristes pela minha partida e eu também, porém sempre existe um lado bom para tudo(se não tem, está errado) e o bom, é que com muito orgulho eu percebi que eu merecia aquele sentimentdo que vinha de todos. Só sentimos falta do que tem valor e eu me sinto feliz, de ter tido o meu valor como pessoa reconhecido por tantas pessoas que eu respeitva tanto.

O meu valor, só existe porque conheci e aprendi com essas pessoas.