Archive for February 20, 2012

Mestres

Treinando agora com foco no Zen Nippon Karate-do Goju-kai Taikai (Campeonato Nacional de Karate-do Goju-kai) que seria realizado no ginásio Yoyogi, em Tokyo no mês de Agosto, não tinha tempo para ficar pensando no passado. O futuro era o que me motivava, e para que o futuro fosse bom, precisava trabalhar duro no presente.
No campeonato, o evento em si, já é um show a parte. Tudo organizado, programação do evento na entrada do ginásio para cada participante, com horários e kotos das categorias estipulados criteriosamente, a educação geral de todos os participantes e o bom senso comum, nenhum papel ou sujeira fora ou dentro do ginásio.
Um evento com aproximadamente mil participantes, sem atraso, sem erros, sem outra palavra, a não ser “impecável”, assim são os eventos da Goju-kai no Japão.
Outro ponto alto do evento, além das finais, eram as apresentações, geralmente executada pelo Saiko Shihan Yamaguchi Goshi, que deixava sempre a todos extasiados, o silêncio total no ginásio e o poder que o “Ki” era emanado, tamanha era a concentração.
Poder estar ali representando o Dojo do Sensei Konomoto, era para mim uma grande honra, apesar de nem sempre conseguir um bom resultado, a concorrência nesta categoria era realmente grande e de se respeitar, já que ali tinham nomes como Saito Akihiro, Horst Baumgürtel, Yamaguchi Masatoshi, Kamogawa Naoto, entre muitos outros (aproximadamente uns cem) e sabia que meu nível ainda não estava a tal altura. Estar ali, mesmo perdendo era empolgante, pois tudo era material de estudo para crescer, para melhorar, para evoluir.
Outros Mestres como Kikuchi Sensei, Sakamoto Sensei, Futawatri Sensei, se apresentaram e os vendo pensava: “Um dia terei também conhecimento e sabedoria, um dia quero chegar a ser um Mestre…..”

Quem é você?

Depois de colocar o sono em dia, tudo parecia ter voltado ao normal. Só parecia, porque não era mais o “normal” que eu havia me acostumado. Perto da minha casa, não havia mais uma loja de video games, nem as lojas de conveniência de grandes redes como “Circle K” ou “Seven Eleven”.

Estava eu aqui de novo, desta vez num lugar familiar, mas que agora soava como estranho. Com excessão dos meus pais e das minhas duas irmãs, todas as pessoas do meu convívio diário ficaram para trás.

Os amigos, os lugares e as atividades, nada mais daquilo estava do meu lado. Era estranho encontrar com parentes, pessoas que eu não via há tempos e sinceramente talvez mais até do que quando cheguei no Japão, me senti como um estranho no ninho.

Claro, família é família e exatamente por isso sei que nenhum deles tem culpa pelo fato de eu ter me sentido de tal forma, a culpa, se é que dá para chamar assim, era da vida, dos acontecimentos, das memórias e das experiências que eu vivi naquele tempo em que estive longe.

Até aquela sensação passar demorou, assim como demorou para eu entendê-la também. Entender que, não eram as pessoas, o clima ou a casa no Brasil que haviam mudado e sim eu. Eu não voltei a mesma pessoa.

É óbvio. Porque toda criança, todo adolescente muda até a fase adulta. Mas não é disso que estou falando, estou falando de conceitos que moldam os pliares essenciais da vida, a raíz, o núcleo, a base.

Penso eu que, a formação da base de um indivíduo é o que o define como pessoa pela vida inteira. Todos mudamos, melhoramos ou pioramos no decorrer da vida, mas ninguém muda completamente lá na sua raíz. E a minha raíz foi moldada no Japão. Dali em diante então, talvez eu realmente estivesse no lugar certo ao ser chamado de japonês.

Mas mais uma vez, a vida exige uma adptação daquele que mais uma vez encontra-se como um estranho no ninho.