Archive for March 22, 2012

A nossa dimensão

A questão do tempo sempre esteve presente no nosso caminho. Meu irmão e as horas extras na fábrica, eu e os estudos no Japão, as partidas de video game nas nosas horas de lazer e o tempo, que passávamos treinando Karate de alguma forma.

Por algumas vezes, essas horas se encontravam e eu garanto que meu irmão passou diversas vezes pelo tempo trabalhando na fábrica, pensando no Karate, nas horas em que estava sozinho.

Costumo dizer que gosto de andar de metrô. Gosto porque me lembra dessa época em que todo o tempo que passávamos juntos, inclusive dentro dos trens, era um tempo que era invadido pelos desejos que tinhamos diante do Karate-Do.

Gosto de andar de metrô. Porque nessas horas eu me sinto sozinho. Sozinho o suficiente para conectar este meu tempo tempo gasto de um lugar para o outro, com o tempo que eu tenho para aprender sobre mim. Aprender, pensar, refletir e concluir muitas coisas à respeito do meu Karate.

Não existe tempo gasto em vão, nem tempo mal aproveitado quando falamos sobre experiência. Pois experiência em si não quer dizer acúmulo de tempo e sim, acúmulo de tempo muito bem aproveitado. A experiência está diretamente ligada à intensidade. E esta por sua vez, representa totalmente o que é o Karate-Do.

O tempo muda de acordo com a intensidade das coisas, hora passa mais rápido, hora mais devagar.
Lembro de ter lutado com o meu irmão, num treino no quintal de casa naquela época em que ele estava passeando por aqui. E naquele momento por exemplo, onde a situação era difícil, o tempo se prolongava de uma forma que chegava a dar raiva. Quando o ar é pouco ou pesado, quando alguém te faz sentir o ar pesado, o tempo custa a passar.

Porém voltando de metrô esses dias, na semana em que completo dezessete anos desde que me formei faixa preta, entre tantos pensamentos sobre o que preciso fazer para melhorar, paro e penso que passado esse tempo todo, eu continuo pensando no que fazer. Estou no caminho certo.

Dezessete anos que na verdade são um conjunto de momentos onde o ar ficou pesado. Sentando aqui, escrevendo sobre o passado, sei que vivemos na nossa dimensão. Continuamos querendo mais e enquanto esse sentimento estiver presente, nós seremos donos do tempo mesmo que este voe tão depressa.

Brasil sempre Brasil

Uma coisa é morar no seu país, outra coisa é “passear” no seu país. Passear, fazer turismo, é bom, é relaxante, é despreocupante e comigo não era diferente. Era muito bom poder rever os lugares onde passei a infância e adolescência, os amigos, os parentes, tudo que era ruim do meu país parecia não existir mais.
Claro que esta é uma visão bem simplista e fora da realidade, possível apenas para meros viajantes, como eu. O país continuava com seus problemas sociais, jurídicos, de violência, de corrupção, mas continuava a ser o meu país, onde eu me sentia realmente em casa.
O fato também de ter o tempo livre para poder fazer tudo isso também contribuía de forma bem benéfica! Trabalhava no Japão seis dias por semana, 15 horas por dia dentro de uma fábrica e quando não estava nela, era em casa ou no Dojo. Ter tempo para pegar o carro, ir na casa dos amigos, jogar conversa fora ou passear em algum lugar, era realmente muito bom.
Treinávamos também, mas nem de perto a quantidade que tínhamos no Japão. Iria ficar quarenta dias no Brasil e como estava chegando ao final, parecia que tinha que aproveitar o máximo possível, tudo parecia bom e barato.
Já havia ganho cinco quilos desde que chegara ao Brasil, muita comida boa e a vida de não fazer nada a não ser se divertir. O problema é que eu só teria vinte dias para perder tudo quando chegasse ao japão, pois tinha o Campeonato Estadual de Shizuoka e lá a regra é realmente seguida e estar fora do peso, significaria ser desclassificado.
Mas, por enquanto queria curtir estar com meu brother Horácio e minha família, o Brasil era o meu lar e estava decidido a voltar definitivamente para cá.