It’s all about Kokoro

A língua japonesa, se não for a única, é uma das poucas que tem duas palavras distintas para definir o que generealizamos como coração. Uma delas, a palavra Kokoro (心), se refere ao lado emocional e espiritual deste coração.
A volta para casa, a ida para o Dojo ou o caminho a pé rumo aos treinos físicos no parque. Talvez, estes tenham sido os momentos em que eu mais pude aprender sobre o significado e a importância da palavra “Kokoro” dentro do Karate-Do.
Às vezes eram momentos de silêncio e tensão com uma atmosfera densa e pesada, por outras vezes era tydo descontraído e cheio de conversas que pouco tinham ligação com o Karate, mas sempre, em todas as situações de forma indireta ou direta o Karate-Do esteve presente(afinal, sempre era a ida ou a volta de algum lugar que envolvia a palavra treino).

Voltando do parque Shie Gurando, meu irmão mostra suas mãos, bem machucadas após os socos dados nas árvores do parque ao final do treino. As minhas mãos na maioria das vezes ficavam bem menos machucadas que as dele. Enquanto caminhávamos voltando para casa, numa conversa descontraída comparávamos as nossas mãos e meu irmão se orgulhava das suas, visivelmente orgulhoso por sempre fazer o seu melhor. Ali, me ensinava que a intensidade tinha de ser sempre constante e que se era difícil para mim, era para ele também. Vou aprendendo então, a importância de sempre ter as minhas verdades em jogo.

Socar árvores ou o que quer fosse, não era sobre um calejamento externo. Era sobre se questionar constantemente. Quem você é e quem você quer ser, onde mora sua força ou fraqueza de espírito. Mais tarde, entende-se que qualquer treino que seja, só é treino mesmo, se serve para esse constante questionamento. Tomamos um isotônico (Pocari Sweat, muito popular no Japão) de maquininha e vez ou outra recebo um elogio, uma palavra de reconhecimento pelas minhas mãos, por ter ido mais longe do que o treino passado. Eu sorria e com muito orgulho, limpava o sangue da minha mão.

Dentro do trem, indo para o Dojo. Eu já sabia que teria algum obstáculo, pois meu irmão nunca me deixou treinar na zona de conforto, sempre era incômodo, seja pelo fato de ter que enfrentá-lo na hora extra de treino ou por conta de algum garoto do dojo com quem eu tinha certeza que meu irmão me faria lutar. Como eu nunca foi o melhor, sempre tinha alguém maior, mais forte ou melhor em algum quesito para tornar minhas noites mais “agradáveis”. Então dentro do trem, eu sempre vivia  o meu conflito particular, esperando pelo que viria algumas horas depois.

Voltando para casa, na estação de trem. Depois de matar ou morrer. Quando tinha sucesso, estava sorridente contando detalhes para o meu irmão de como eu tinha conseguido me impor diante dos garotos melhores do que eu. Quando não tinha sucesso, estava ali, calado e cabisbaixo, geralmente nervoso, engolindo o choro entre soluços contidos, pensando no que havia feito de errado.  O silêncio neste caso, ensina muito mais do que palavras e meu irmão, sabia disso. Por mais bravo e descontente que ele também estivesse, geralmente ficava calado e também emburrado, porque certamente para ele também não era nada bom saber que eu tinha falhado.

O Caminho, tem os seus caminhos. Dojo, significa literalmente, “o lugar do caminho”. Onde você coloca em prática o Karate-Do. Mas as máquinas de refrigerante, o parque, as estações de trem, os trens, me ensinaram que o verdadeiro dojo se chama Kokoro. Porque é ali, que tudo nasce, vive, cresce, evolui e se torna muito maior do que tudo através do tempo, do suor, da dor ou até mesmo do sangue.

Não é sobre seiken, maegeri, kata, kumite ou kihon. Somos o que somos aqui nestas linhas escritas, só porque:

It’s all about Kokoro.

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