O Dia Que Me Faz

Amanhece um sábado chuvoso. O Apartamento está meio escuro e tomamos o nosso café em família. A sensação de ter todos ali era ótima, mas confesso que eu ali sentando, estava muito mais preocupado/ansioso/apreensivo com o meu primeiro dia de aula, do que exatamente feliz com aquele momento.

Eu nunca fui um sujeito dos mais espontâneos. Desde a primeira vez em que fui para uma escola na minha vida, eu sempre fiquei muito mais apreensivo do que confortável com a situação da primeira vez.
Ali, naquele país onde eu mal tinha chego, onde mal havia me habituado, eu encarava ali com muita apreensão o meu primeiro dia de aula.

Sentados em volta da mesa, tomando nosso café, lembro da minha mãe e principalmente do meu irmão me encorajando, dizendo coisas legais e fazendo brincadeiras à respeito da escola para que eu me sentisse mais seguro enquanto os minutos iam se passando.

Saio de casa acompanhado do meu irmão, da minha mãe, do Kaban preto e do Capacete amarelo. Chovia muito naquele dia. Durante o trajeto de ida, para melhorar ainda o meu “clima”, um carro passou por uma poça gigante e nos molhou por completo. Meu irmão e minha mãe voltariam para casa, mas eu tive que ir para a aula todo molhado mesmo.

Já na escola, caminhando pelo corredor que me leva até a sala de aula, “escoltado” pelo meu professor da época, o Oishi sensei, lembro que aquele corredor de poucos mais de 5 metros pareceu gigante. Todos olhavam para mim e um ou outro cochichava algo com o amigo ao lado. Nunca na minha vida me senti tão deslocado, tão “outsider” em algum lugar ou em alguma coisa como naquele dia.  Aquela caminhada, parece ter durado horas até chegar à sala de aula.

O mundo sempre surpreende. E essa é a graça disso tudo. Um coletivo de indivíduos vivendo suas vida, onde vez ou outra um ou outro cruza o seu caminho quando você menos espera. O mundo surpreende por que não há controle de tudo, de todos e muito menos daquilo que você desconhece.

Para a minha surpresa, o Oishi sensei, que era o professor da minha turma, tinha organizado uma recepção de gala para mim. Todas as crianças da minha turma, vieram me receber naquele primeiro dia de aula com cartões de boas vindas com alguma mensagem ou desenho feito por cada um. O tempo acabou passando muito rápido naquele dia e no final da aula, Oisihi sensei ainda distribuiu um espécie de mini-dicionário com palavras do cotidiano de uma criança, em portguês para as crianças se comunicarem comigo.

Se alguém me diz “receptividade”, logo, penso neste dia. E se eu pensar à fundo sobre quem eu sou, logo vou chegar à este dia que para mim, é onde eu começo a me tornar de verdade quem eu sou hoje. Naquele mesmo dia, eu conheci o que eu queria ser pelo resto da minha vida, mesmo que sem saber disso naquela épóca.

2 comments

  1. Horácio,

    Hoje tive contato com um vídeos (Viajem ao Uruguai) e o seu post aqui no blog.

    Não há como distinguir uma coisa da outra, mas uma coisa é certa: O Educador/professor faz toda a diferença na vida dos seus alunos.

    Motivo: Exercício da doação.

    Tive uma experiência parecida no Colégio Campos Salles (tradicional colégio da região oeste de SP). Depois nas graduções e durante este período aos 28 anos conheci um professor que me apresentou o Karate.

    Tudo é importante, mas esse dia e esse esporte mudaram a minha vida, vira e mexe a frase ouvida no meu primeiro dia de aula aparece na mente: Você tem boa concentração, perfil de karateca, muito bom, parabéns.

    Prabéns pelo excelente trabalho!

    OSS – Ricardo Alves (O Karate pra mim)

  2. Simone Kanashiro says:

    nada como alguém se importar em te fazer sentir bem, mesmo sem te conhecer, só pelo fato de saber que isso pode te fazer mais feliz um dia.