Próximo de um final

Na próxima semana postaremos a última história desta etapa do Saito Brothers, que retornará com novo visual, novidades e novas histórias, claro. Aguardem!!!!!
O ano de 1998 estava começando a dar seus frutos. Nossos alunos disputaram o Campeonato Paulista e se classificaram para o Campeonato Brasileiro. No Brasileiro, conseguiram resultados além do esperado e conquistaram a vaga para a Seleção Brasileira para disputarmos o Campeonato Sul-Americano que seria disputado em Santiago, no Chile, no mês de dezembro.
Em apenas dois anos de trabalho com aqueles garotos e garotas já tínhamos conseguido classificar, além de mim e o brother Horácio, mais cinco alunos. Isto era muito gratificante, pois ali estavam os frutos de muita confiança depositada no meu trabalho, pelo meu Mestre no Japão e pelo Mestre Watanabe aqui no Brasil. 
Infelizmente acontecem coisas em nossas vidas que não temos controle e que imaginamos intimamente não acontecer. 
Após o Mestre Watanabe retornar do Chile, viagem que fez para visitar e acompanhar a organização do Campeonato Sul-Americano, é internado às pressas com uma suspeita de infecção intestinal. Mas, após diversos exames foi constatado que era um câncer de estômago que derrubara o nosso grande guerreiro, líder e exemplo de milhares de pessoas que o acompanhavam em sua jornada de vida, que era o Karate. 
Não deu tempo de assimilarmos a situação e quão grave era, e o Grande Mestre Ryuzo Watanabe veio a falecer no dia 05 de Dezembro de 1998. Uma grande tristeza assolou a todos, lágrimas não eram suficientes para expressar a dor que estávamos sentido. Um líder, um Mestre, um pai para muitos. Ninguém queria acreditar e era difícil conter os sentimentos de uma perda como esta. 
Em seu velório, pessoas de todos os lugares vinham prestar suas homenagens. Não apenas pessoas ligadas ao Karate, mas também da colônia japonesa e de diversos amigos que o Mestre galgara também como pessoa pública. 
O Mestre Ryuzo Watanabe foi enterrado no Cemitério da cidade de Suzano e a nós restou a dúvida agora a respeito do Campeonato Sul-Americano que aconteceria na semana seguinte.
Nos reunimos e decidimos que a melhor forma de honrar o nome do nosso querido Mestre e que amava tanto o Karate-do Goju-ryu, era vestindo o Karate-gi e lutando. Iríamos sim ao Chile e lá prestaríamos nossas homenagens, da forma que o Mestre Watanabe sempre nos ensinou,
Com honra!!!!!

Pescando na chuva

Meu irmão sempre gostou de pescar.
Todas às segundas, meu irmão pegava na escola depois da aula, eu trocava de roupa no caminho, dentro do carro e íamos pescar. Essa era mais uma das “nossas coisas”, momentos, como aqueles vividos no Japão, nas viagens de trem, quando passávamos na livraria, líamos o que queríamos, meu irmão pegava uma revista de Karate, eu pegava a nova edição do mangá preferido e pegávamos um taxi para casa.
Entre essas coisas que fazíamos juntos, lembro também das manhãs já aqui no Brasil, quando acordava cedo e íamos correr no parque antes da escola. Voltava para casa, tomava um banho, vestia o uniforme e ia estudar.

Pescar, naquela época era a “nossa coisa”do momento. Apesar de eu ir muito mais pela diversão de fisgar o peixe e por acompanhar sempre o meu irmão em todos os lugares, gostava muito desta época. Mas nunca fui um pescador como o meu irmão.

Meu irmão se divertia pescando, mas também se divertia com as minhas trapalhadas com a “tralha” de pesca, quando eu gastava mais tempo desembaraçando a linha do que pescando em si. Eu ficava bravo e ele ria e quando os nós eram cegos demais, ele montava outra vara para mim.

A maioria das pessoas gosta de fisgar o peixe. E acho que isso se encaixa muito bem no que é a vida. As pessoas sempre querer ter algo, ter o prazer de ter algo, mas quem aqui gosta de pescar na chuva sem pegar nada?
Bom, o meu irmão gosta.

Lembro-me de um dia, que estava frio e chovia muito. Fomos pescar, porque o meu irmão sempre seguia em frentre com os seus planos, fosse com sol, fosse com chuva. Chovia tanto naquele dia, que eu mal podia ver o que se passava lá na ponta da linha lançada no lago, quase não via a bóia. Não dava para diferenciar o que era a chuva balançando a água e o que era o peixe tentando morder a isca. Tudo que eu via, era o meu irmão. Parado, quieto, atento, coberto com uma capa de chuva, olhando para a água.

Nesse dia, do quiosque, observando o meu irmão pescando na chuva eu entendi muita coisa sobre pescar, aprendi o que é gostar de pescar. E quem sabe até, tenha aprendido muita coisa sobre a própria vida. A verdadeira pescaria, mora em quem gosta de pescar independente de tudo.

É preciso estar lá. Com sol ou com chuva. Enxergando o que há adiante ou não, é preciso estar lá.
O que essas lembranças tem a ver com o nosso Karate? Bom, só entende, quem está na chuva. Para se molhar? Sim. Mas mais do que isso, para pescar.